Sem entrar na onda da IA e sem recompra de ações, será que a “austera” JD.com ainda consegue se manter?
Talvez a plataforma de comércio eletrônico mais "proeminente" atualmente na China – JD.com (JD.US) – divulgou em 13 de agosto à noite os resultados do segundo trimestre de 2026. De modo geral, pode-se dizer que foram "estáveis", mas também "sem brilho". Em termos de expectativa, tanto a receita quanto o lucro total superaram ligeiramente a previsão da Bloomberg, mas, em comparação com algumas grandes instituições financeiras, apenas cumpriu ou ficou um pouco abaixo.
Em termos de tendência, dado que o consumo doméstico geral enfraqueceu no segundo trimestre, a receita total entrou em uma trajetória negativa, mas como as vendas no varejo já vinham dando sinais de fraqueza, isso não surpreende. Apesar do lucro do segmento de shopping ter caído em relação ao ano passado, o lucro total do grupo, na comparação anual, mostrou-se claramente recuperado, já que no ano passado o lucro praticamente foi zerado devido à "guerra de delivery".
Detalhes:
1. Queda tanto na receita quanto no lucro, mas sem sustos: A receita total da JD.com neste trimestre foi de cerca de 346,4 bilhões de yuans, uma queda de 3% em relação ao ano anterior, redução mais acentuada do que os 5% do trimestre anterior, mas em linha com as expectativas do mercado, sem grandes surpresas, além de seguir a tendência geral do crescimento das vendas no varejo no período.
O lucro operacional total do grupo foi de 4,55 bilhões, ajustado para 5,48 bilhões. Nessa ótica ajustada, ficou ligeiramente acima da expectativa da Bloomberg, mas inferior à expectativa de algumas grandes instituições. Especificamente, o principal motivo foi o prejuízo das novas operações, que foi maior que o esperado.


2. Queda mais acentuada em produtos do cotidiano e receitas de publicidade: O mais importante, o segmento de shopping doméstico reduziu sua receita em cerca de 4,7% ano a ano neste trimestre, com o ritmo de queda esperado, e o declínio foi menor do que o previsto pelo mercado, mas consistente com as grandes instituições.
Detalhando, o aspecto que mais preocupava, a deterioração nas vendas de produtos elétricos não foi tão severa quanto se temia, neste trimestre, a queda anual foi inferior a 12% vs. queda de 8,4% no trimestre anterior. Isso talvez se deva a um leve retorno dos incentivos do governo, que antes se concentravam no canal offline e estão voltando para o online.
Em contrapartida, as vendas de bens de consumo diário e receitas de publicidade, que teoricamente não são afetadas diretamente pela redução de incentivos do governo, tiveram uma queda de crescimento ainda mais evidente. O crescimento das vendas de produtos diários caiu de 15% para 5,6%, enquanto o crescimento da publicidade despencou de quase 19% para cerca de 8%. Ambas as taxas de crescimento diminuíram cerca de 10 pontos percentuais.
Mesmo que o mercado já esperasse esse abrandamento (devido ao menor impacto de eletrônicos e delivery como canais de tráfego), esses são exatamente os dois principais motores do crescimento da JD.com no médio prazo, o que pode levantar dúvidas sobre, mesmo quando o efeito negativo dos incentivos do governo passar, se o crescimento do segmento de shopping da JD.com poderá retomar ritmo acelerado (por exemplo, voltando a mais de 10%).


3. Guerra do delivery arrefece, crescimento de logística e novos negócios também desacelera: Devido ao elevado nível alcançado durante a guerra do delivery, além da queda no volume de pedidos este ano, as receitas com logística e o crescimento dos novos negócios também diminuíram neste trimestre.
Dentre eles, o crescimento de receitas logísticas e outros ficou em 5,9%, com o efeito do delivery diminuído, praticamente voltando à normalidade de um dígito médio-alto antes de 2025.
Contudo, observando apenas as receitas dos novos negócios, houve um crescimento trimestral de cerca de 15%, sugerindo que contribuições de negócios no exterior aumentaram.


4. Margem do shopping ainda melhora, prejuízo das novas linhas um pouco maior: No geral, o lucro do grupo ficou basicamente dentro das expectativas neste trimestre.
Analisando por segmentos, o segmento de shopping da JD.com obteve quase 13,5 bilhões de lucro operacional neste trimestre, ligeiramente acima da previsão da Bloomberg, de 13 bilhões. Em tendência, não conseguiu resistir à contração da receita, registrando queda anual de cerca de 3%, sem superar de forma expressiva as expectativas desta vez.
No entanto, a margem de lucro ainda melhorou cerca de 0,1 ponto percentual ano a ano. Para os otimistas, trata-se de uma elevação de margem mesmo com receita em declínio; para os pessimistas, o espaço para aumento da margem no segmento de shopping parece limitado.
Segundo a empresa, a melhoria da margem se deve, principalmente, à mudança no mix de receitas para negócios de maior rentabilidade e à otimização da cadeia de suprimentos.
No segmento de inovação que inclui delivery, o prejuízo neste trimestre foi de quase 9,9 bilhões, semelhante ao esperado e praticamente sem queda em relação ao trimestre anterior, além de mais elevado que o consenso da Bloomberg.
De acordo com o consenso de mercado, o prejuízo da JD.com com delivery deve ter sido reduzido em cerca de 1 bilhão em relação ao trimestre anterior; assim, estima-se que o investimento em outras áreas, como o exterior, cresceu em cerca de 500 milhões (o que não é tanto assim).


5. Perspectiva de custos e despesas: Primeiramente, a margem bruta do grupo continuou avançando, passando de 16,8% para 17,1% neste trimestre, permitindo ainda um crescimento de cerca de 5% do lucro bruto.
Especificamente, principalmente, após a redução dos subsídios ao delivery, a margem bruta dos segmentos de inovação e logística melhorou, sendo o novo negócio o maior contribuinte, com a margem subindo 3 pontos percentuais no trimestre. Em comparação, a margem do segmento de shopping caiu cerca de 0,1 ponto percentual no trimestre, embora na comparação anual ainda tenha subido 1,2 ponto. Assim, parece haver pouco espaço para buscar mais margem na cadeia de suprimentos a montante.
Sob a ótica dos custos, as despesas totais tiveram queda anual de 4,4% neste trimestre, maior do que a queda da receita, ajudando na liberação do lucro. Notadamente, o investimento em marketing, como esperado, caiu 25% ano a ano. Outro ponto é que as despesas em P&D continuam crescendo rapidamente (+38%), sugerindo que, apesar de não haver grande investimento em modelos de IA, a JD.com está investindo em aplicações internas de IA.
Por segmento, o índice de despesas totais do segmento de shopping aumentou tanto no trimestre quanto no ano, em torno de 1 p.p. Isso mostra que, após o fim dos incentivos do governo, a empresa teve que arcar mais com subsídios ao usuário, dificultando o avanço da margem de lucro desse segmento.
A redução dos custos totais do grupo se deve, sobretudo, à diminuição dos investimentos em novos negócios, com queda anual de cerca de 1,8 bilhão.



6. Retorno ao acionista em queda, não investe em IA mas sim no exterior: Outra vantagem anterior da JD.com era estar entre as melhores em retorno ao acionista entre as chinesas listadas. Mas, em todo o primeiro semestre de 2026, recomprou apenas cerca de US$ 1 bilhão em ações, o que comparado ao valor de mercado representa um retorno anualizado de apenas 5%, abaixo do normal.
Ao contrário de Alibaba ou Tencent, a JD.com não tem despesas massivas de Capex em IA, então a pressão sobre o fluxo de caixa não é grande. No fluxo de caixa desse trimestre, o investimento foi de cerca de 29,5 bilhões, mas em sua maioria aplicação em investimentos de curto prazo, não investimentos produtivos de fato. A percepção do mercado é ruim ao ver a preferência por aplicações financeiras a pagamento de dividendos.

Opinião da Dolphin Research:
1. Como já mencionado, os resultados da JD.com não trouxeram surpresas ou destaques. Em tendência, o crescimento desacelerou devido à economia macro, e mesmo que o lucro total pareça melhor por conta da redução das perdas em delivery, o núcleo – o segmento de shopping – teve lucro em queda. Portanto, o desempenho total definitivamente não foi bom.
Resumidamente, os principais defeitos são: a) queda das receitas do shopping, que era esperada, mas, historicamente, o segmento vinha superando expectativas com folga, e agora essa capacidade parece ter atingido um limite; b) ainda que o delivery reduza perdas, devido ao investimento no exterior, o prejuízo total dos novos negócios basicamente não recuou; c) crescimento bem menor de bens de consumo diário e publicidade, que preocupam sobre as perspectivas de receita futura; d) prefere aplicar a pagar dividendos.
2. Perspectivas e raciocínio
Os resultados não foram bons, e qual é a expectativa para frente? Na visão do analista Dolphin, os fatores decisivos para resultados e preço das ações são basicamente dois:
1) Se o clima dos negócios de e-commerce doméstico mudará para melhor no segundo semestre. A partir dos dados macro, tanto as vendas totais quanto as vendas on-line realmente tiveram o pior desempenho em anos neste segundo trimestre. Mas o crescimento do varejo em junho já apresentou melhora em relação a maio. O crescimento geral saiu de -0,6% para +1%, e de bens físicos on-line de 2,6% para 3,9%.
Particularmente importante para a JD.com, as vendas de eletrodomésticos, móveis e produtos de comunicação, segundo a agência de estatística, melhoraram significativamente em junho (quedas menores). Realmente, a desaceleração na venda desses produtos foi moderada nesse último trimestre.
De acordo com pesquisa de uma instituição estrangeira, no segundo semestre, os incentivos do governo devem migrar do canal offline para o online. Além disso, a base comparativa ficará ainda menor, de modo que, em termos de tendência, os resultados da JD.com provavelmente tenderão à estabilização/recuperação.

2) Outro fator chave é a postura quanto ao investimento em novos negócios e a evolução das perdas nessas áreas, afetando o potencial de resultado do grupo.
Atualmente, com todos os concorrentes de delivery reduzindo investimentos e buscando eficiência, as perdas da JD.com com delivery devem continuar diminuindo. Porém, dado que o volume diário de pedidos já caiu abaixo de 20 milhões e dificilmente voltará a crescer sem novos subsídios, a menos que a JD.com abandone de vez o delivery, é provável que o prejuízo continue, atingindo um "piso", sem cair muito mais.
Mas, como o segmento doméstico tradicional já tem teto de crescimento claro, a empresa dificilmente deixará de diversificar seus negócios. Assim, a elasticidade do lucro depende do quanto investirá na "Jingxi" e nos negócios internacionais. No curto e médio prazo, os investimentos da JD.com no exterior provavelmente não vão cair, já que JoyBuy ainda está em estágio inicial de expansão, presente em mais de 30 cidades de 7 países.
Portanto, no curto prazo, as perdas dos novos negócios tenderão a reduzir-se lentamente, com pouca chance de queda agressiva, como de fato aconteceu neste trimestre.
3) Por fim, nos últimos trimestres, a JD.com vinha surpreendendo com melhoria da margem do shopping, mas desta vez não ocorreu. Para investidores que apostavam na eficiência interna para compensar pressões externas, é mesmo decepcionante.
Pelo lado positivo, a JD.com não está envolvida na "guerra dos modelos de IA", portanto, não terá sua margem e fluxo de caixa comprometidos por investimentos agressivos em IA. Embora o resultado deste trimestre seja morno, está grosso modo dentro do esperado, e se o ambiente do e-commerce melhorar no segundo semestre, a JD.com ainda é uma das empresas do setor com resultado mais previsível e valor defensivo para compor carteira no cenário doméstico atual.
3. Em termos de valuation, dado que os resultados vieram em linha, a previsão anual permanece. O lucro operacional esperado para o segmento de shopping em 2026 segue cerca de 56 bilhões, crescendo um dígito alto ano a ano.
Quanto às perdas dos novos negócios (incluindo delivery e Jingxi + exterior), devido ao revezamento do investimento internacional mencionado, não deve cair muito, então a expectativa é de prejuízo anual de 36,5 bilhões, com o lucro operacional consolidado do grupo por volta de 19,5 bilhões (sem considerar descontos fiscais adicionais).
No curto e médio prazo, as oscilações nos resultados da JD.com tendem a ser pequenas, com destaque para a estabilidade. Se mantiver uma boa política de retorno ao acionista, será um ativo defensivo para investidores focados em segurança e previsibilidade. Contudo, a postura negativa quanto ao retorno ao acionista reduz a atratividade do papel, dificultando uma justificativa convincente para alocação na empresa. Pode-se até especular com a melhora do e-commerce no semestre, mas JD.com talvez não seja o case mais flexível para tal aposta.
- FIM -
Se gostou do artigo, clique em“Compartilhar” para dar uma força pra gente~
Aviso Legal: o conteúdo deste artigo reflete exclusivamente a opinião do autor e não representa a plataforma. Este artigo não deve servir como referência para a tomada de decisões de investimento.
Talvez também goste

"Inovação financeira com IA": Queda acentuada da Broadcom e o modelo de "garantia de venda" dos chips de IA
Ações da Broadcom caíram drasticamente devido à reprecificação do mercado causada pelo risco de crédito da "garantia do vendedor". Com o limite próximo dos gastos de capital dos grandes players tradicionais de nuvem, Broadcom e Nvidia entraram em cena, oferecendo garantias para SPVs com o objetivo de securitizar a capacidade de computação e atrair fundos de crédito privado. Embora essa medida tenha expandido os gastos de capital com IA, preocupações do mercado aumentaram em relação ao tamanho da dívida, valor residual dos chips e alta concentração de clientes.
"Inovação financeira alimentada por IA": o grande plano de US$ 500 bilhões da Nvidia
A Nvidia está oferecendo endosso de crédito para novos provedores de serviços de nuvem de IA (neocloud) por meio do modelo de “garantia em troca de participação nos lucros”, visando obter uma fatia dos rendimentos e contornar as restrições de despesas de capital dos gigantes tradicionais de nuvem, além de criar uma fonte de receita recorrente anual. O Morgan Stanley é otimista quanto à lucratividade de longo prazo e à liderança da empresa no setor, mas também aponta que essa estrutura de receita recorrente gerou divergências entre os participantes do mercado.

