Vice-presidente do Banco Central Europeu soa o alerta de "bolha": avaliação dos ativos de IA está "muito alta" e o mercado de ações pode corrigir facilmente
O vice-presidente do Banco Central Europeu, Vujčić, alerta: o mercado impulsionado por ativos com inteligência artificial está sujeito a risco de reversão.
De acordo com o Financial Associated Press, o vice-presidente do Banco Central Europeu, Boris Vujcic, alertou que a disparada das avaliações de mercado, impulsionada principalmente pelo entusiasmo com inteligência artificial, torna o mercado de ações mais suscetível ao risco de correção.
“Rácios como o preço/lucro atual e o forward P/L, mesmo que não sejam inéditos, não se viam há muito tempo”, afirmou o funcionário croata no podcast do Banco Central Europeu, “Euro Matters”, publicado na terça-feira. “Essas avaliações podem se mostrar razoáveis no fim das contas, mas também podem não ser.”
Ele alertou que “a exposição é enorme, e continua aumentando”, acrescentando: “Temos de ser muito cautelosos e monitorar de perto essa situação, porque, com uma exposição tão grande e tanto investimento entrando, isso certamente representa um risco para a reprecificação das ações.”
O “coro” dos presidentes de bancos centrais
As observações de Vujcic reforçam ainda mais o consenso crescente entre presidentes de bancos centrais, reguladores e investidores: as avaliações das principais empresas de IA podem estar demasiadamente elevadas e, caso haja uma repentina queda desses valores, isso pode desencadear uma correção global mais ampla dos mercados. Um dia antes, na segunda-feira, a presidente do Banco Central Europeu, Christine Lagarde, também afirmou que os ativos do setor de IA estão avaliados a preços “muito altos” e que uma correção é “totalmente possível” — embora ninguém consiga prever quando isso poderá ocorrer.
Esta não é uma declaração isolada dentro do Banco Central Europeu. Segundo relatórios, em 17 de agosto, cinco economistas do BCE (Malin Andersson, Johannes Breckenfelder, Stefano Corradin, Kalin Nikolov e Maria Antonietta Viola) já haviam publicado uma análise afirmando que “uma correção nas avaliações atuais do mercado de ações é possível” e, para a zona do euro, isso será “um problema de estabilidade financeira, não apenas uma questão privada” — em outras palavras, o impacto não será arcado apenas por investidores em ações de tecnologia.
O momento do alerta merece atenção
Esses comentários surgem justamente quando empresas desenvolvedoras de IA como Anthropic PBC e OpenAI estão em confronto com o governo do presidente Donald Trump por pedirem que a indústria desacelere o desenvolvimento de IA. Essa posição já levou à venda de ações de tecnologia e trouxe dúvidas sobre a sustentável expansão dos data centers globais.
De fato, o mercado norte-americano deu um exemplo visual disso na noite passada. Ao fechar na segunda-feira, os três principais índices de ações dos EUA caíram juntos. Mas o maior impacto foi no setor de semicondutores — o índice Philadelphia Semiconductor despencou 5,86% em um único dia, a maior queda desde 1º de julho.
No mesmo dia, o rendimento dos títulos do Tesouro dos EUA a 10 anos ultrapassou 5% durante a sessão, o que não acontecia desde outubro de 2023. Além disso, após um breve susto com tarifas em 2025, a dívida de margem no mercado acionário dos EUA disparou 77% em 14 meses, ultrapassando US$ 1,5 trilhão, encarando ao mesmo tempo “avaliações recordes, aumento da taxa livre de risco e desaceleração de IA”.
Quão extremas estão as avaliações?
Por trás da avaliação de Vujcic de ser algo “raro em muitos anos” estão dados históricos impressionantes. Segundo a plataforma de análise NextFin, o CAPE de Shiller do S&P 500 ficou acima de 40 desde maio de 2026 — o único outro período em que esse valor se manteve nesse patamar por vários meses foi antes do pico da bolha da internet em março de 2000. O valor atual está pouco acima de 40, chegando perto do recorde de 44,2, cerca de 2,3 vezes a média de longo prazo de 17.
A temperatura elevada das avaliações não se limita ao preço/lucro. O “Indicador Buffett”, que compara o valor total do mercado de ações dos EUA ao PIB, excedeu 237%, muito além da linha vermelha de 200% definida pelo próprio Buffett como perigosa. Desde que o atual mercado de alta começou em outubro de 2022, o S&P 500 subiu 127%, o Dow Jones 95% e o Nasdaq 161%, impulsionados principalmente pelos gastos em infraestrutura de IA.

O rali também é marcado por uma concentração sem precedentes: as sete gigantes (Apple, Microsoft, Nvidia, Google, Amazon, Meta, Tesla) representam mais de 35% do valor de mercado do S&P 500; as dez maiores empresas do índice concentram cerca de 38% da capitalização de mercado, enquanto sua participação nos lucros é de apenas 31% (segundo dados da NextFin até o início de 2026). Essa concentração significa que um deslize de poucas ações pode virar um evento para todo o mercado, em vez de uma mera rotação entre setores.
Para a Europa, a exposição é concreta. De acordo com a análise da equipe de economistas do BCE mencionada, as famílias da zona do euro possuem cerca de 440 bilhões de euros em ações das sete maiores empresas dos EUA, e os fundos de pensão e seguradoras possuem volume semelhante — grande parte dessa exposição é formada de maneira “não voluntária” por meio de instrumentos passivos de índices.
O que mudou desta vez: menos amortecedor
Comparando com o estouro da bolha das pontocom em 2000, a principal diferença pode não estar na bolha em si, mas na munição disponível para intervir. Em 2000, o Federal Reserve tinha espaço para cortar juros radicalmente e o governo podia agir. Agora, o ponto de partida deixa a política econômica com menos espaço de manobra — as taxas de juros já estão baixas e a dívida pública está em níveis elevados. Se ocorrer uma correção juntamente com instabilidade no mercado, os formuladores de política terão muito mais dificuldade para agir — e é exatamente por isso que o BCE considera isso um “problema de estabilidade financeira”.
No podcast, Vujcic também mencionou os riscos geopolíticos e a política fiscal como outros perigos potenciais para o sistema financeiro: o primeiro “pode rapidamente alterar preços e sentimentos de mercado”, enquanto o segundo envolve países com “situação fiscal insustentável no longo prazo”.
“Aprendemos com a experiência passada que o que é insustentável realmente não se sustenta”, disse ele, afirmando que seria melhor lidar logo com esses problemas. “Esse é outro motivo pelo qual temos de monitorar de perto esses aspectos, pois esses mercados também podem ser reprecificados, e de maneira relativamente rápida.”
O risco geopolítico não é mero alarmismo: o Brent fechou acima de US$ 107 por barril na segunda-feira, e o conflito no Oriente Médio pressiona inflação e mercado de títulos, criando uma segunda camada de pressão para a reprecificação das avaliações. Do lado dos juros, a ferramenta FedWatch da CME indica que o mercado atribui quase 90% de probabilidade para um aumento de 25 pontos-base pelo Federal Reserve em setembro; a Macro Risk Advisors chegou a advertir que tal alta, possivelmente iniciada nesta semana, pode gerar uma correção de cerca de 10% no S&P 500.
A cautela dos bancos centrais: alerta não é pessimismo total
É importante notar que, ao emitir esse alerta, o Banco Central Europeu tem sido bastante cauteloso. Segundo relatos, sua análise enfatiza que não se trata de prever um colapso, tampouco de estimar o momento exato da correção, que só pode ser identificado a posteriori; além disso — o que interessa também a quem pensa em vender tudo rapidamente — “isso não significa que o preço atual é um teto”. Caso a IA realmente se mostre revolucionária, mesmo após uma repricing, as avaliações ainda podem ficar “muito mais altas” no futuro.
Em outras palavras, o BCE tenta separar o sucesso da IA do “nível de segurança” dos preços correntes das ações — um problema erroneamente vinculado pela alta longa e estreita deste ciclo. O mérito técnico da IA é uma coisa; o preço que os investidores pagam por isso é outra — e é esse último ponto que realmente preocupa Vujcic e seus colegas.
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