Intervenção cambial do Japão “retira liquidez”? Em julho, holdings estrangeiros de títulos dos EUA caem para o menor nível em nove meses; participação da China atinge o nível mais baixo desde 2008.
De acordo com um relatório do Departamento do Tesouro dos EUA, em julho, o volume de títulos do Tesouro norte-americano mantidos no exterior caiu US$ 50,4 bilhões em relação ao mês anterior. O maior credor dos EUA, o Japão, reduziu suas participações em US$ 12,8 bilhões, registrando queda pelo terceiro mês consecutivo e atingindo o nível mais baixo em mais de um ano. O terceiro maior credor, a China, também reduziu suas posses em US$ 15,4 bilhões, caindo pelo segundo mês seguido. Por outro lado, o segundo maior credor, o Reino Unido, aumentou suas participações em US$ 58,4 bilhões, atingindo um novo recorde desde maio. Em julho, França e Canadá apresentaram as maiores quedas nas participações, reduzindo respectivamente US$ 41,5 bilhões e US$ 30 bilhões.
Dados oficiais dos EUA mostram que, em julho deste ano, o volume de títulos do Tesouro americano mantidos por investidores estrangeiros caiu para o nível mais baixo em nove meses, coincidindo justamente com a intervenção do maior credor estrangeiro dos EUA, o Japão, no mercado cambial para apoiar o iene.
De acordo com o relatório sobre fluxos internacionais de capitais (TIC) divulgado pelo Departamento do Tesouro dos EUA em 16 de setembro, quarta-feira, horário da Costa Leste dos EUA, o volume de títulos do Tesouro americano detido por investidores estrangeiros caiu por dois meses consecutivos, com uma redução de US$ 50,4 bilhões em relação a junho, atingindo US$ 9,25 trilhões, o menor nível desde outubro de 2025.
O relatório TIC mostra que a diminuição das posições de França e Canadá foi o principal fator para a redução das posições estrangeiras em títulos do Tesouro americano em julho. Japão e China continental também continuaram a reduzir suas posições. Ao mesmo tempo, o Japão coordenou com os EUA no final de julho a intervenção no mercado cambial, comprando ienes, o que levantou novamente a questão: se o Japão, ao utilizar reservas para apoiar sua moeda, afetaria ainda mais sua alocação de títulos do Tesouro americano e traria pressão adicional ao mercado de títulos dos EUA.
Posições do Japão em títulos do Tesouro caem por três meses consecutivos e atingem menor nível em mais de um ano
O relatório TIC mostra que o Japão reduziu em US$ 12,8 bilhões suas posições em títulos do Tesouro americano em julho, chegando a US$ 1,1039 trilhão, registrando queda por dois meses consecutivos para o menor nível desde janeiro de 2025, mas ainda mantendo-se na liderança entre países e regiões estrangeiras. Até julho, o Japão acumulava três meses de redução.
O Japão é o maior detentor estrangeiro dos títulos do Tesouro americano, e a correlação entre suas reservas internacionais e o mercado de Treasuries sempre foi monitorada pelo mercado. Nos últimos meses, a redução pelo Japão coincidiu em tempo com a intervenção no câmbio.
Segundo dados divulgados pelo Ministério das Finanças japonês em 29 de maio, entre 28 de abril e 27 de maio, a intervenção total do Japão no mercado cambial atingiu 11,73 trilhões de ienes. Analistas acreditam que essas operações de compra de ienes podem envolver a venda de um volume considerável de títulos do Tesouro americano.
Em 3 de agosto, o Ministério das Finanças japonês confirmou que o governo japonês e o Departamento do Tesouro dos EUA coordenaram em 31 de julho uma intervenção comprando ienes para conter as recentes flutuações bruscas da moeda. Esta foi a primeira coordenação entre Japão e EUA desde o terremoto de 2011 no Leste do Japão, sendo uma ação conjunta muito rara fora de períodos de crise financeira ou outras situações excepcionais.
Dados divulgados em 29 de agosto pelo Ministério das Finanças japonês mostram que, entre 30 de julho e 26 de agosto, o governo do Japão gastou cerca de 15,4 trilhões de ienes na intervenção cambial, estabelecendo um novo recorde.
A intervenção cambial requer que o lado japonês venda moedas estrangeiras e compre ienes. Como as reservas japonesas contêm grande volume de títulos do Tesouro americano, o mercado atenta se o Japão venderá Treasuries ou outros ativos em dólar para financiar essas ações.
Mas é importante notar que o relatório TIC contabiliza a variação do saldo das posições, incluindo tanto as operações efetivas de compra e venda quanto a variação dos valores de mercado dos títulos. Portanto, não é possível, somente através do relatório, afirmar quanto o Japão vendeu de Treasuries para intervir no câmbio.
China também reduz posições, Reino Unido vai na contramão e aumenta em US$ 58,4 bilhões, atingindo novo recorde
Segundo o relatório TIC, além do Japão, outro grande credor dos EUA, a China, também seguiu reduzindo suas posições em julho.
A China continental reduziu em US$ 15,4 bilhões suas posições em títulos do Tesouro americano em julho, chegando a US$ 618 bilhões, o menor nível em 18 anos, desde 2008, acumulando reduções por dois meses consecutivos e quedas em nove dos últimos onze meses, mantendo-se como o terceiro maior detentor estrangeiro.
Já o Reino Unido, segundo maior credor estrangeiro dos EUA, teve movimento oposto. A posição britânica aumentou US$ 58,4 bilhões em julho, alcançando US$ 998,3 bilhões, superando o recorde anterior de maio. Desde que o Reino Unido ultrapassou a China pela primeira vez em mais de vinte anos, em março de 2025, manteve-se na segunda posição; em julho, após um recuo em junho, voltou a aumentar sua posição pelo sexto mês nos últimos sete.
Entre os dez maiores países e regiões detentores de títulos do Tesouro americano presentes no relatório TIC, apenas Reino Unido, Luxemburgo e Ilhas Cayman aumentaram posições em julho, sendo o Reino Unido o que mais avançou, com Luxemburgo e Ilhas Cayman aumentando em US$ 7,9 bilhões e US$ 7 bilhões, respectivamente. As maiores quedas foram registradas pela França, nona maior detentora, e pelo Canadá, sétimo lugar, com recuos de US$ 41,5 bilhões e US$ 33,3 bilhões, respectivamente.
A Bélgica, quarta maior em saldo, reduziu em US$ 11,8 bilhões, indo para US$ 470,7 bilhões. Analistas ressaltam que contas de custódia de países como a China podem estar incluídas no saldo da Bélgica, não podendo ser interpretado apenas como operações de investidores belgas.
De modo geral, a queda nas posições estrangeiras dos Treasuries em julho não foi causada apenas pelo Japão. O recuo das posições de França, Canadá e outros países, bem como mudanças nos preços dos títulos, também impactaram o volume total.
Posições estrangeiras em Treasuries seguem caindo; mercado segue atento à inflação e déficit fiscal
Olhando para a tendência geral, os ativos de Treasuries detidos por investidores estrangeiros recuaram a partir do pico no início do ano.
O relatório TIC de junho, divulgado anteriormente pelo Tesouro americano, mostrou que o volume de Treasuries detidos por estrangeiros caiu em US$ 72,1 bilhões em relação a maio, chegando a cerca de US$ 9,3 trilhões, representando a maior queda mensal desde março. Em maio, as posições estrangeiras atingiram cerca de US$ 9,37 trilhões, ficando atrás apenas do recorde histórico de cerca de US$ 9,49 trilhões registrado em fevereiro.
Em julho, as posições estrangeiras diminuíram mais US$ 50,4 bilhões, caindo para US$ 9,25 trilhões, afastando-se ainda mais do pico do início do ano.
A Bloomberg destacou que o índice Bloomberg de Treasuries caiu mais de 1% em julho. Naquela época, investidores temiam que a guerra no Irã amplificasse os riscos inflacionários, enquanto continuavam atentos ao déficit fiscal dos EUA.
A queda das posições estrangeiras pode significar pressão na demanda por Treasuries, mas o saldo das posições não reflete necessariamente o volume líquido de vendas. Especialmente em momentos de queda nos preços dos títulos, mesmo sem grandes vendas, o valor de mercado das posições pode diminuir.
Para o mercado de Treasuries, a pressão potencial de vendas de ativos provocada pela intervenção cambial do Japão se soma ao déficit fiscal dos EUA, aos riscos inflacionários e às mudanças na demanda internacional. O foco daqui para frente não está apenas em saber se o Japão continuará a reduzir suas posições, mas também em como o país financiará futuras intervenções cambiais e se outros principais detentores estrangeiros farão mudanças sustentadas em suas alocações.
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