Alta de juros "dovish" esta noite?
O Federal Reserve deve aumentar as taxas de juros nesta noite, mas o ponto crucial é "o que será dito após o aumento". O Citi classificou esta decisão como um "ajuste fino", indicando que não há uma necessidade obrigatória de aumentos futuros, mas alertou que, caso o presidente Powell não forneça orientações claras, isso poderá causar grande volatilidade no mercado. Já o Goldman Sachs afirmou que este aumento de juros carece de base econômica suficiente, que a inflação é apenas um fator pontual, e prevê que será um "aumento sem sinalização".
Wall Street está em suspense aguardando a decisão de taxas do Federal Reserve nesta quarta-feira. Citi e Goldman Sachs, de maneira incomum, apresentam julgamentos centrais altamente convergentes: o aumento de juros desta vez é praticamente certo, mas será um "aumento dovish" — o aumento em si não é o foco, o essencial é o que o Federal Reserve diz ou deixa de dizer após o anúncio.
Segundo informações do Trading Desk, o Citi apontou em seu mais recente relatório de 15 de setembro que a previsão base indica que o Federal Reserve definirá este aumento como um mero "calibration" (ajuste fino), e sugerirá que não há necessidade obrigatória de novas altas no futuro. O relatório de 13 de setembro do Goldman Sachs, por sua vez, destaca que esta noite teremos um aumento "sem sinalização", e deixa claro que não acredita haver uma justificativa econômica sólida para este aumento, atribuindo todo o excesso de inflação em relação à meta de 2% a fatores pontuais e afirmando que não há superaquecimento econômico.
Tanto Citi quanto Goldman Sachs esperam que o gráfico de pontos mediano mostrará apenas um aumento extra em 2026 e cortes serão retomados em 2027. A previsão central de PCE deverá ser revisada para baixo em relação aos dados de junho devido a mudanças metodológicas, sustentando a interrupção do ciclo de altas.
Apesar do cenário base ser dovish, a coletiva de imprensa de Walsh será o grande mistério para o mercado. Na avaliação do Citi, caso o presidente do Fed, Walsh, recuse fornecer um guidance claro e apenas enfatize que "há mais trabalho a fazer", o mercado pode voltar a precificar aumentos consecutivos em outubro e dezembro, causando forte volatilidade nos preços dos ativos. O Goldman Sachs acredita que Walsh precisa, na coletiva, enfatizar que o comitê vai "avaliar cuidadosamente" os dados que estão por chegar, sinalizando a espera por mais informação e assim guiando o mercado para diminuir o excesso de confiança num aumento em outubro.
Analistas consideram que o essencial neste evento não é "aumentar ou não", e sim "o que será dito após a decisão". Cada palavra de Walsh será examinada com lupa pelo mercado.
Cenário base dovish: aumento passivo e "calibração" como tom
A precificação atual do mercado já força o Federal Reserve a tomar uma decisão. Segundo Goldman Sachs, após a divulgação do CPI de agosto, a probabilidade precificada de aumento já chegou a 90%, e o Fed se vê compelido a elevar a taxa em 25 pontos-base para evitar reação adversa aguda do mercado caso não atue.
Porém, será um movimento completamente dovish. Conforme a previsão base do Citi, o guidance futuro que acompanha o aumento deixará de apontar para novas altas da política de juros.
É bastante provável que o presidente do Fed, Walsh, descreva a elevação dos juros como um "slight adjustment" (leve ajuste) ou "calibration" (calibração), e sugira ao mercado que, se a inflação demonstrar sinais de convergência à meta, outros aumentos podem não ser necessários.
O Goldman Sachs também prevê que o Fed fará apenas as alterações necessárias mínimas na declaração, evitando qualquer orientação sobre o rumo futuro — ou seja, trata-se de um aumento "sem sinalização".
Merece destaque que o Goldman Sachs prevê que o governador do Fed, Waller, votará contra o aumento. A razão é que, nos últimos três meses, a taxa anualizada do núcleo do PCE (já considerando mudanças metodológicas previstas) caiu para cerca de 2,5%, abaixo do limite de 2,8% definido publicamente por Waller para manter os juros estáveis.
Goldman Sachs: não vê fundamentos econômicos para aumento desta vez
Diferentemente da perspectiva estratégica do Citi, a equipe econômica do Goldman Sachs parte dos fundamentos e afirma claramente não enxergar razões econômicas suficientes para elevar a taxa dos Fed Funds nesta reunião.
O argumento central do Goldman Sachs é que: todo o desvio da inflação acima da meta de 2% pode ser atribuído a fatores pontuais e transitórios, como efeitos de tarifas, conflitos de energia/Irã, impactos nos preços de software/acessórios e efeitos de gestão de portfólio. Para o Goldman, a melhora do núcleo do PCE para uma taxa anualizada de cerca de 2,5% entre junho e agosto (incluindo o efeito previsto da revisão metodológica) já demonstra um esfriamento desses fatores extraordinários.
Quanto à amplitude da inflação, o Goldman Sachs também diverge. Embora ultimamente mais categorias de preços estejam subindo a taxas anualizadas acima de 3%, o banco observa que, excluindo o efeito das tarifas, a amplitude inflacionária é equivalente à de períodos de inflação de 2% na história — e o choque das tarifas provavelmente já está absorvido.
Além disso, o "Bottlenecks Tracker" (Indicador de Gargalos) do Goldman Sachs indica que as restrições de capacidade setoriais hoje são até menores que no pré-pandemia, concentrando-se em poucos setores relacionados ao boom da IA. Não há superaquecimento econômico — e o superaquecimento é o motivo clássico para elevação dos juros.
Evidências macroeconômicas também sugerem que aumentos limitados de juros dificilmente neutralizarão impactos inflacionários de choques de oferta. Ou seja, o principal raciocínio do Fed, com ou sem aumento, segue sendo esperar que choques anteriores percam potência ao longo do tempo.
Por isso, o Goldman Sachs acredita que parte dos membros do FOMC concorda com essa leitura sobre inflação, sendo improvável que o FOMC, no geral, deseje sinalizar novas altas nesta reunião.
Projeções econômicas SEP: gráfico de pontos e revisão do núcleo do PCE embasam tom dovish
Vários componentes do Sumário de Projeções Econômicas (SEP) vão reforçar essa impressão dovish.
O Citi indica que o gráfico de pontos mediano mostrará apenas um aumento extra este ano, com cortes retomados em 2027. Esse caminho segue a lógica interna do Fed: uma taxa de juros ao redor de 4% já é "levemente restritiva", e à medida que a inflação retorne à meta, essa restrição tende a ser suavizada progressivamente.

O Goldman Sachs também detalha sua expectativa sobre a distribuição do gráfico: espera-se uma maioria estreita de 10 a 8 para apenas uma elevação em 2026 (com Waller e possíveis outros defendendo zero altas). A justificativa: parte dos membros já hesita até com este aumento, enquanto outros se opõem a ampliar a expectativa de aumentos pelo mercado.
Mas o Goldman ressalta um risco: caso mais membros vejam o aumento desta semana como reação normal à alta do petróleo e demanda por IA, abrindo caminho para uma sequência de altas, o risco de maioria para dois aumentos não é irrelevante.
Sobre as projeções de inflação, ambos os bancos preveem revisão para baixo do núcleo do PCE devido à nova metodologia. O Goldman espera que o SEP de setembro traga a mediana do núcleo de PCE para 2026 de 3,3% (junho) para 3,2%, o que respalda a interrupção dos aumentos.
Coletiva de Walsh: o maior mistério do mercado
Apesar do cenário base dovish, o Citi alerta: o fator mais importante — e também o mais incerto — para o tom global será justamente como o presidente Walsh abordará esse aumento. O estilo pessoal de Walsh é dar pouco guidance, o que deixa amplo espaço para o mercado precificar políticas mais hawkish.
O Citi acredita que se Walsh apenas enfatizar "há mais trabalho a fazer" sem dar guidance para próxima reunião, o mercado pode ver isso como perigoso. Nesse cenário hawkish, pode-se esperar aumentos tanto em outubro quanto em dezembro pelo FOMC — e até mesmo riscos de alta adicional sendo precificados até 2027.
A avaliação do Goldman Sachs é ainda mais específica: o FOMC pode desejar direcionar o mercado a reduzir a confiança num aumento em outubro (que já está em quase 50%), mas sem declarar isso abertamente. Em vez disso, Walsh pode dizer na coletiva que, antes de tomar mais medidas, o FOMC vai "avaliar cuidadosamente" os dados por vir, ou que espera ver vários (plural) relatórios de inflação, ou observar a evolução das tendências subjacentes da inflação — qualquer uma dessas frases, sinalizando a intenção do comitê de reunir mais evidências antes de agir.
O Goldman Sachs ainda cita que muitos investidores já consideram as eleições de meio mandato de novembro como um obstáculo político para uma alta em outubro, tornando fácil evitar que outubro vire "cenário base" para o mercado.
O Goldman Sachs trabalha com três cenários:
- Cenário base (50% de chance): apenas um aumento (agora), cortes em setembro e dezembro de 2027, taxa terminal de 3,25% a 3,5%;
- Cenário de várias altas (35%): no fim, duas a três altas, taxa terminal maior;
- Cenário recessivo (15%): economia desacelera, política monetária vira para acomodação.
Mesmo considerando o risco de múltiplas altas, a projeção do Goldman Sachs para os Fed Funds, ponderada pelas probabilidades, é muito mais dovish que a atual precificação do mercado. O Goldman também elevou sua projeção para a taxa terminal de 3%–3,25% para 3,25%–3,5%, e adiou a primeira redução dos juros de 2027 de junho para setembro.
O Citi, por sua vez, destaca que as recentes oscilações acentuadas do petróleo WTI e do preço médio da gasolina nos EUA trazem ainda mais complexidade para as projeções inflacionárias e para o caminho do Fed. Caso os preços de energia sigam elevados, podem minar a avaliação do Fed de que "a inflação já está seguindo para a meta", reforçando a postura hawkish entre alguns membros.

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